As ocupações de prédios em São Paulo não
são do jeito que a maioria das pessoas pensa.
Fui convidado a visitar um deles. Fiquei impressionado.
Primeiro, uma corrente com cadeado na porta e uma pessoa pedindo para você assinar um livro, colocando nome, hora da entrada e depois da saída, se você é visitante ou pertencente a outro movimento de ocupação. Ou sua ocupação.
No pequeno hall percebi, junto com a escada, a limpeza do local. Depois os corredores, quartos, banheiros, em um prédio antigo, mas muito limpo, bem cuidado. Aí deixei de ter a impressão de um lugar sujo, bagunçado, com lixo por todos os lados como as pessoas, que também não conheciam a fundo essa realidade, diziam. Mais de duzentas pessoas moram lá e são organizadas: se revezam na limpeza do prédio.
Nenhum morador pode entrar alcoolizado, drogado etc., em qualquer hora do dia ou da noite. O pessoal, inclusive, não admite moradores com problemas assim. Existe hora do café da manhã, almoço e jantar.
Entrei lá por volta das dez horas da manhã e havia pouquíssimas pessoas (quem estava designado para trabalhar no prédio naquele dia), porque as outras trabalham fora e isto já é outro diferencial em que as pessoas em geral não sabem ou fingem que não sabem: moradia no Brasil é cara, sempre foi e nunca houve uma preocupação dos políticos com o social, como um todo, a melhorar a situação econômica do nosso povo, a educação, saúde, alimentação e habitação. Sem trabalho não se compra casa, ganhando pouco também não, e se os imóveis forem caros, dificulta seriamente o problema, ou seja, o povo encurralado em casas alugadas, ou muito pequenas ou com problemas na estrutura, cortiços, favelas... Quem entrou naquele prédio em que fui trabalha e trabalha muito, mas não possui condições para comprar uma casa.
Eu não sei o que a mídia diz, as pessoas pensam etc., mas nunca vi uma descrição ou algo parecido com o que eu disse no parágrafo acima. Não sou dono da verdade, mas não há quem não trabalhe naquele prédio. E quem trabalha merece e possui o direito de ter a sua casa, família, saúde, alimentação e lazer. Ou quem dirá para mim que não? Só se for um inimigo do próprio irmão brasileiro ou um egoísta tão grande que não enxerga nada a sua frente.
E então entraria os governos ou deveria: moradia barata e para todos a não deixar ninguém de fora.
Vejo movimentos do governo federal neste sentido, a favor de habitação em massa e não só, por exemplo, como os poucos prédios construídos pelo Maluf, os "cingapuras", apenas para dizer que fez, colocando-os em locais de fácil visualização e por isto o povo achando que ele fez muito. Grande engano. Para um país tão populoso como o nosso, só realizações sociais em massa!
E, se o prédio de ocupação que visitei for exceção, ou seja, se nenhum outro possui organização como tal, que ele seja modelo.
Você deve estar se perguntando: "e a legislação? Entrar em prédios é ilegal". Para um país que nunca investiu no social em massa, entrar em prédios ociosos dos governos não é crime.
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